Remédio revolucionário contra o HIV ainda é inacessível

  • 28/07/2026
(Foto: Reprodução)
Anvisa aprova lenacapavir injetável para prevenção do HIV Para uma jovem saudável na África do Sul, o maior risco de contrair HIV pode vir justamente de alguém em quem ela gostaria de confiar, mas não pode. Talvez ela não conheça, por exemplo, a situação sorológica do parceiro, nem sempre consiga insistir no uso de preservativo ou tenha pouco controle sobre a possibilidade de ele manter outros relacionamentos. Para isso, existe uma opção: os comprimidos de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) mantêm medicamentos antirretrovirais no organismo em níveis suficientemente altos para impedir que o HIV se estabeleça após uma eventual exposição ao vírus. Mas a PrEP só funciona se ela continuar tomando a medicação. Se muitas doses forem perdidas, os níveis do medicamento podem cair a ponto de não mais oferecer uma proteção suficiente. O risco é de ela esquecer de tomar os comprimidos, resistir à necessidade de uma medicação diária ou temer o estigma caso o parceiro ou algum familiar encontre os medicamentos. Ela também pode sofrer efeitos colaterais da PrEP ou ter dificuldades para conseguir novas doses. Lenacapavir AdobeStock Como o lenacapavir pode ajudar? Tomar medicação de forma consistente — algo conhecido como adesão ao tratamento — é um desafio para pessoas com doenças como hipertensão e diabetes. No caso da PrEP, porém, a dificuldade é ainda maior. "Você está pedindo que pessoas saudáveis, que não têm nenhuma doença, tomem um comprimido todos os dias", afirmou Salim Abdool Karim, diretor e cofundador do Centro para o Programa de Pesquisa em Aids da África do Sul. "Essa é uma exigência enorme." "Diversos estudos, incluindo os nossos, mostram que pacientes que começam a tomar PrEP, por volta do terceiro mês, metade deles já abandonou o tratamento. No fim do ano, resta apenas um pequeno grupo que continua tomando a PrEP", disse Abdool Karim à DW. Ao exigir apenas uma injeção a cada seis meses, o lenacapavir reduz drasticamente esse fardo diário. "É infinitamente mais fácil do que lembrar de tomar um comprimido todos os dias", afirma Karim. "Para quem recebe a injeção a cada seis meses sem falta, funciona de forma excelente porque a adesão é praticamente completa." Mas o lenacapavir ainda é caro demais em algumas regiões, e o acesso ao medicamento continua limitado. Veja como funciona o lenacapavir. Arte/g1 - Thalita Ferraz Como o lenacapavir permanece tanto tempo no organismo? A maioria dos medicamentos já estabelecidos de PrEP bloqueia enzimas que permitem que o vírus se reproduza e se espalhe – o HIV usa essas enzimas para copiar seu material genético e inseri-lo no DNA das células humanas. O lenacapavir atua de forma completamente diferente: trata-se do primeiro medicamento para PrEP a atingir o capsídeo, uma estrutura em forma de cone que envolve o material genético do vírus. O capsídeo também é essencial para o processo de replicação viral e, por isso, representa um alvo promissor. "[O lenacapavir] é a molécula mais potente que conhecemos contra o HIV", disse Wesley Sundquist, bioquímico da Universidade de Utah e um dos principais especialistas em capsídeo do HIV, em entrevista à DW. Segundo ele, o lenacapavir continua eficaz por longos períodos e mantém sua potência mesmo em baixas concentrações. Quais grupos se beneficiariam do lenacapavir? Abdool Karim destacou três grupos nos quais a incidência de HIV continua persistentemente alta e onde ampliar o uso da PrEP é urgente: Meninas adolescentes e mulheres jovens em partes da África Jovens homens gays no Ocidente Comunidades gays vulneráveis no Leste Europeu e na Ásia Central Na África do Sul, a distribuição para pessoas em situação de risco começou em junho de 2026, apoiada por um acordo firmado em julho de 2025 entre a desenvolvedora do medicamento, a Gilead, e uma organização de financiamento público-privada chamada Global Fund. A Gilead concordou em fornecer lenacapavir sem obtenção de lucro para até 2 milhões de pessoas ao longo de três anos. Anteriormente, em outubro de 2024, a empresa também havia autorizado a produção de versões genéricas mais baratas do medicamento em 120 países com recursos limitados e altas taxas de infecção por HIV. Mas alguns países ainda não têm acesso ao medicamento. Países latino-americanos ficaram de fora Melissa Scharwey, da ONG Médicos Sem Fronteiras, afirmou que alguns países latino-americanos, incluindo o Brasil, o México, o Peru e a Argentina, foram excluídos das recentes iniciativas de distribuição do lenacapavir, apesar de terem participado dos ensaios clínicos. Mesmo nos países elegíveis, grupos vulneráveis ainda podem ficar sem acesso, disse Scharwey à DW. "Não há nem de longe quantidade suficiente", afirmou Scharwey, pedindo que a Gilead aumente a oferta e venda diretamente à MSF por um preço acessível, em torno de 40 dólares (cerca de R$ 200) por aplicação. Segundo a epidemiologista Monisha Sharma, da Universidade de Washington, a questão decisiva para reduzir as infecções por HIV é se o medicamento vai conseguir chegar às pessoas e aos locais onde o vírus se espalha mais rapidamente. "Em nossos modelos para a África do Sul, o Zimbábue e o oeste do Quênia, fornecer lenacapavir para aproximadamente 2% a 4% da população adulta, com foco nas pessoas de maior risco, evitou cerca de 12% a 18% das novas infecções ao longo de dez anos", disse Sharma à DW. Lenacapavir 'dificilmente vai eliminar o HIV' "O lenacapavir pode acelerar substancialmente o progresso na redução da incidência, mas é improvável que elimine a transmissão do HIV por si só", afirmou Sharma. "Esse impacto depende fortemente de preços acessíveis para o lenacapavir, canais eficientes de distribuição e adoção direcionada às pessoas com maior risco de infecção pelo HIV", acrescentou. Essa última condição é justamente o que mais preocupa Abdool Karim. O lenacapavir pode resolver, em grande parte, o problema da adesão para quem recebe a medicação. O que ele não consegue resolver é um desafio mais difícil para os especialistas: identificar e alcançar aqueles que correm maior perigo. "O problema é que as pessoas com maior risco precisam ir atrás da medicação. E, muitas vezes, quem corre maior risco não se percebe em risco. É por isso que está em risco", disse Abdool Karim. "Se não conseguirmos alcançar essas pessoas, não vamos conseguir reduzir esta epidemia da forma que esperávamos."

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/28/remedio-revolucionario-contra-o-hiv-ainda-e-inacessivel.ghtml


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